O sexo do sexo

Publicado: 6 de fevereiro de 2015 em O que é do Homem

Pergunte a dez homens, e pelo menos nove dirão a mesma coisa (o décimo estará mentindo): a fantasia masculina definitiva é transar com duas mulheres, ou pelo menos VER duas mulheres transando. É um consenso universal, uma dessas coisas que nunca são discutidas mas naturalmente aceitas. Na verdade, chega a ser difícil explicar uma razão convincente. Por isso vou tentar várias. E vou ousar ir além: explicar também por quê todo homem honesto tem fantasias com duas mulheres, mas não consegue aceitar a idéia de dois homens juntos.

A rotina é sempre a mesma: no meio de uma conversa alguém traz à tona o assunto duas mulheres. Então suspiro fundo, deixo minha imaginação solta e murmuro “ah, duas mulheres…”. Como se fosse o pensamento mais sublime do mundo (e é). Se a companhia é masculina, todos me acompanham. Se é feminina, ou levo um tapa, um sorriso seguido de um “besta!” ou uma reação indignada: Por que homens sempre fantasiam com duas mulheres juntas? A última vez que isso aconteceu eu conversava com uma amiga numa festa, e ela estava genuinamente curiosa. O namorado dela já tentara explicar algumas vezes, sem sucesso, e agora cabia a mim arrumar uma explicação plausível. Os argumentos que se seguem foram elaborados, em grande parte, naquela noite. Se for convincente, agradeçam a ela.

A razão primeira, simples e definitiva, é uma constatação básica: sexo é uma coisa feminina. É feito melhor por mulheres, com mulheres, para mulheres. Não estou falando isso de brincadeira, nem é uma constatação machista, pelo contrário: chega a ser humilhante admitir que as mulheres são muito melhores nisto do que nós, homens. São muito melhor resolvidas sexualmente do que nós, e têm uma visão muito mais abrangente do que significa um bom sexo. Nós, pobres homens, em geral temos uma visão bastante limitada do ato sexual, normalmente ligada à procriação. Pode parecer engraçado dizer isso, mas é verdade: o senso comum dita que o homem pensa mais em sexo e o faz por prazer, enquanto que a mulher só está pensando em casar e ter filhos. É aquele ditado, casamento é a concessão dos homens para chegar ao sexo, e sexo é a concessão das mulheres para chegar ao casamento.

Balela. Pense só: qual é a definição básica do sexo para o homem (e principal reclamação das mulheres): penetração, fricção, orgasmo. Qual a definição básica do sexo para as mulheres (e que elas vivem tentando nos fazer entender): preliminares. A primeira é um ato mecânico, que a natureza engendrou para levar à procriação. A segunda é fonte de prazer e diversão descompromissada. Sinto dizer, mas as mulheres estão anos luz à nossa frente.

Isso é só o começo. Cara conhece garota. Ela diz pra ele que também transa com mulheres. O que acontece? Ela fica, em geral (claro, é sempre em geral; há exceção para tudo) mais atraente. Mais sexy. Mais feminina. Garota conhece cara. Ele diz a ela que também transa com homens. O que acontece? Ela perde o interesse nele. Ele fica menos atraente. Menos masculino. Vê para que lado a flecha indica? Mulher transa com mulheres? Mais feminina. Homem transa com homens? Menos masculino. A sexualidade aponta sempre na direção da mulher.

A obsessão masculina com duas mulheres transando não é assim tão difícil de entender: As mulheres sempre tiveram a cama feita para elas, nesse sentido. Mulheres se abraçam. Se beijam. Andam de mãos dadas na rua. Melhores amigas, quando uma dorme na casa da outra, frequentemente dividem a mesma cama. Em noites frias podem até mesmo dormir abraçadas, sem dificuldade alguma. Não estou sugerindo que haja nada de sexual em nada disso, pelo contrário: são manifestações de carinho genuínas, normais, inerentes à sensibilidade feminina. O ponto é outro: o toque entre duas mulheres é algo naturalmente aceito, por ambos os sexos. Dois amigos fazendo a mesma coisa? Não sem levantar olhares suspeitos. Extremamente suspeitos.

Para a mulher, dar o passo além é algo extremamente natural. Quase toda mulher já experimentou trocar um beijo na boca ou uma troca de carícias com outra mulher, nem que fosse para concluir que “gosta mesmo é de homem”. E fez isso sem traumas, sem marcas. Porque para a mulher isso é muito mais fácil. Se um homem faz o mesmo, provavelmente é porque ele se sente sexualmente atraído pelo outro, é um passo que ele costuma dar sem volta. Uma mulher pode transar com outra mulher sem perder a feminilidade; para um homem, transar com outro homem é dar as costas (sem trocadilho) à sua masculinidade.

Claro que há mulheres que gostam de outras mulheres, e ponto. Mas não é disto que estou falando; muito menos estabelecendo um juízo de valor ou questionando quem gosta do quê. Há homens que gostam apenas de homens, e mulheres que gostam apenas de mulheres, e nada de errado com isso, sempre existiu, com diferentes formas de repressão, e sempre existirá, faz parte da natureza. Não escolhemos por quem nos sentimos atraídos. Estou falando apenas que, para mulheres que gostam de homens, transar com outra mulher não é nenhuma ruptura; mas para um homem que gosta de mulheres, transar com outro homem, é. Mulheres estão mais próximas disso do que os homens, porque o sexo é uma coisa feminina.

A delicadeza, o toque, as carícias mais sutis, tudo isso são consideradas características femininas. A um homem que sabe dar prazer a uma mulher, normalmente se diz o quê dele? Que ele é feminino na cama. E isso é um grande elogio, na verdade o melhor deles. Aliás, o contrário, de que uma mulher é masculina, é associado a quê? Que ela é bruta. Insensível. Bacana.

Daí a fantasia masculina de sexo com duas mulheres – talvez para compensar sua própria inaptidão; talvez – inconscientemente, sempre inconscientemente, aprender alguma coisa. Talvez como forma de reconhecimento à superioridade feminina.

No fundo, no fundo, toda vez que um homem diz à sua namorada que adoraria transar com ela e outra garota, ele está na verdade fazendo um tremendo elogio à sexualidade dela.

A mulher de vinte

Publicado: 6 de fevereiro de 2015 em O que é do Homem

(escrito originalmente em 2002, aos 31 anos. O texto envelheceu, mas eu também!)

Ao longo de meus vinte anos, num período que abrangeu, de um modo geral, dos meus dezenove a meus vinte e nove anos (tecnicamente, desde o começo de minha vida sexual ativa), sempre preferi mulheres mais velhas ou que tivessem, pelo menos, minha idade. Por dois motivos principais: primeiro, eu achava que mulheres mais novas eram imaturas demais, haveria na diferença de idade uma diferença cultural intransponível (como namorar uma garota que não tivesse ido ao primeiro show do Ultraje a Rigor, ou pior, nem soubesse o que era o Ultraje a Rigor). Segundo, mulheres mais velhas – o limite era de até dez anos mais velhas – eram muito mais atraentes, tinham a vantagem de mais vivência, mais experiência, uma experiência que poderiam passar para mim. Boa parte de meus amigos compartilhava de minha opinião. Para mim era até pior: com uma irmã quatro anos mais nova, com quem não me dava bem, qualquer garota mais nova passaria insuportavelmente perto da idéia de ser uma das amigas dela.

Ao mesmo tempo eu tinha amigos mais velhos, trintões, que invariavelmente se interessavam ou namoravam garotas em seus vinte anos ou – sacrilégio – menos. Me parecia inadmissível eles saírem com meninas que eu considerava novas demais para mim. E nunca deixei de pegar no pé deles por causa disso, recebendo as mais variadas reações: desde ser solenemente ignorado, até um complacente “calma, você chega lá”.

A última vez que isso chamou minha atenção foi numa festa em 2000 – quando eu estava justamente no limite de meus vinte e poucos. O aniversariante comemorava seus trinta e um anos junto com a namorada, de “apenas” dezenove, e a festa estava dividida entre os amigos dele – todos beirando ou recém-passados dos trinta, e os dela – fedelhos de dezenove e vinte aninhos. Eu conversava com uma amiga comum quando em determinado momento isso nos chamou a atenção, de tão evidente era a segregação entre os dois grupos. Ela também achava um absurdo ele namorar uma menina tão mais nova. Por mais que gostasse dele, não era capaz de aceitar ou achar normal. Nunca mais haviam saído juntos, desde que ele começou a namorá-la, certamente para poupar o constrangimento: de que forma a menina poderia participar da conversa de um grupo dez anos mais velho do que ela? Aliás, sobre o que, afinal, os dois conversavam, quando estavam juntos? Sobre as bonecas que ela colecionara até pouco antes de começarem a namorar?

Não era puro preconceito, tentávamos argumentar. Havia uma geração inteira entre nós. Sim, em nossa conversa, era muito clara a distinção entre “nós” e “eles”: “nós” éramos fruto da década de 80, dos tênis quadriculados e de vitrola ao som de Paralamas e Barão Vermelho, de E.T. e Caçadores da Arca Perdida, do Analista de Bagé e Operação Cavalo de Tróia (ok, nem tudo era perfeito). “Eles” eram fruto da década de 90, da… sei lá o que foi moda, mas de Austin Powers e Nirvana, de Paulo Coelho e A Profecia Celestina, e provavelmente nunca pegaram em um disco de vinil, a não ser o de seus pais. A coisa piorou quando o aniversariante começou a tocar Legião, e pessoas de ambos os grupos passaram a cantar junto. Ei, peraí! Essas músicas são NOSSAS, protestamos. “Nós” havíamos dançado ao som de Tempo Perdido, “nós” havíamos ido aos shows. Como “eles” ousavam conhecer essas músicas? Era como quando cantávamos Raul Seixas ou 14 Bis, de orelhada, por influência de nossos irmãos mais velhos. “Nós” havíamos vivido aquilo; “eles” só pegaram a rebarba. Não havia modo algum das duas gerações se mesclarem.

Pouco tempo depois eu já havia mudado completamente de opinião.

Há algo mágico na passagem dos vinte e nove para os trinta anos. Por mais que se tente colocar na cabeça que é apenas mais um ano, e que a mudança de dois dígitos ao invés de um é algo completamente arbitrário, na verdade provoca uma grande mudança. Para melhor, devo admitir. O pior de fazer trinta anos é a expectativa – depois se descobre que é aí que fica bom. Para o homem, pelo menos. A primeira mudança é quase instantânea: o interesse por mulheres de vinte. Aconteceu comigo, aconteceu com praticamente todos os meus amigos mais próximos. Até amigos gays passaram por isso: passaram para jovens semi-imberbes, ou quase (a primeira vez que um amigo meu apareceu com o namorado barbado em casa protestei, revoltado: namorar homens, até vai. Mas barbudo já é demais).

O interesse por mulheres de vinte, vale dizer, é recíproco: as mulheres de vinte também preferem homens de trinta. Como um amigo meu disse certa vez, tirado sabe lá de onde: quando temos vinte anos nos perguntamos onde estão as mulheres. Quando a gente chega aos trinta, descobre.

Há, na verdade, uma explicação bem simples para isso, para ambos os casos, da qual nenhuma das partes menos favorecidas irá gostar muito: primeiro, mulheres de trinta são muito chatas. Segundo, homens de vinte são muito infantis.

Aos vinte anos somos patéticos, lamento dizer. Crianças grandes, pobres reflexos das mulheres de mesma idade (sim, perceba a sutil diferença: eu chamava as mulheres de vinte de garotas, agora já as chamo de mulheres). Pra começo de conversa, ainda estamos engatinhando quando o assunto é o sexo oposto. Sim, conseguimos namorar, até mesmo um sexo ocasional. Mas daí a entender o que se passa na cabeça das mulheres… não que aprendamos com o tempo, mas na base da tentativa e erro deixamos de errar tanto. Nossos sucessos, de um modo geral, são muito mais fruto de sorte e desespero do que conhecimento propriamente dito. Somos, em uma palavra, inseguros. Para nós a vida está apenas começando.

Já, aos trinta… o homem está mais maduro, já viveu um pouquinho, teve chance de amadurecer mas ainda está jovem o suficiente para curtir a vida. Mais, até: aos trinta, já conquistou – num mundo ideal – uma certa independência financeira, pelo menos neste caso particular está solteiro e relativamente sem compromissos, por isso pode se deixar ao luxo de ter todos os brinquedos que queria ter quando criança mas não podia, de acessórios para o carro ao som mais moderno, passando por toda sorte de equipamentos eletrônicos. É impressionante como as mulheres passam a nos dar bola, depois que fazemos trinta (especialmente as de vinte). É como se passássemos a exalar um aroma especial, de repente ficamos mais atraentes, mais charmosos.

O homem está, afinal, em seu momento mais interessante.

E a mulher? Bom, a mulher de trinta está totalmente paranóica, lamento dizer. Precisando consolidar a carreira profissional ao mesmo tempo em que a preocupação em se casar e ter filhos chega ao seu auge. OK, nos dias de hoje as mulheres podem ter filhos até os quarenta anos, sem problema. Diga isso pra elas: o relógio biológico está apitando mesmo assim. Seu momento é de insatisfação total. Claro, há aquelas que não estão nem aí pra isso, curtem a vida do mesmo modo, muitas nem pensam em ter filhos, mas novamente não é das exceções que estou falando, e sim da imensa maioria. Não é uma questão consciente; talvez não seja nem esse o problema. Este reside, seja qual for a causa, no fato de que ela, que exalava tanta segurança, de repente ficou insegura. Precisando de algo que definitivamente não possui.

Já a mulher de vinte está em seu melhor momento. Primeiro, já é maior de idade, pode fazer o que bem quiser com a vida. Não tem tantas preocupações com o corpo, tirando as de sempre: ao menos não está preocupada que o corpo já começa a pedir arrego. Sabe bem o que quer da vida, e é bem mais amadurecida do que o homem de mesma idade. Para ela a vida também está começando, mas no melhor sentido: já está pronta para usufrui-la plenamente. Ela exala, justamente, a segurança de quem pode querer o que quiser da vida, com a crença de que irá conseguir.

Percebe? A principal diferença entre o homem e a mulher é que este leva dez anos para chegar aonde a mulher já chegou há muito tempo. Pode parecer injusto, mas é verdade. Há uma compensação para nós: nessa passagem de tempo, o homem vai da insegurança para a segurança. A mulher deixa de se tornar uma pessoa segura para se tornar insegura. Não sei o que acontece quando ambos chegam aos quarenta; talvez ambos se equivalham. Quando eu chegar lá, descubro.
Para contrariar isso tudo há a tese de que o auge sexual masculino é aos dezoito anos, e da mulher é aos trinta. Pouco me importa, pelo contrário: se for mesmo o caso, que as mulheres de trinta se satisfaçam com seus equivalentes hormonais. De qualquer modo nós, trintões decadentes, estamos ocupados demais com garotas de vinte, e assim todo mundo fica feliz.

A mente alienígena

Publicado: 6 de fevereiro de 2015 em O que é do Homem
Homens e mulheres são de espécies diferentes. Até aí, nada demais: dezenas de artigos e livros sobre ambos os sexos vivem reafirmando isso. A diferença é que eu acho que são de espécies diferentes mesmo, literalmente.

Certa vez me contaram uma história interessante. Por toda a Inglaterra abundam esquilos, nos parques, florestas, estradas. Esquilos grandes, cinzentos. Vivem sendo fotografados por turistas como parte do “cartão postal britânico”. Pois bem, esses esquilos não são originários da Inglaterra. Vieram junto com os invasores europeus, e lá encontraram o local ideal para se proliferarem. O ponto é que a Inglaterra já possuía seus próprios esquilos: pequenos, de pelo avermelhado, estes sim originários da ilha. Hoje estão quase extintos, ou só existem em reservas: foram quase que completamente aniquilados pelos cinzentos, que lhes tomaram o lugar.

Quando escutei isso minha teoria tomou forma.

No princípio, éramos duas espécies diferentes, mesmo. Não estou falando da briga entre neandertais e cro-magnons ou das possíveis diversas outras raças de hominídeos que teriam resultado na nossa, e sim de duas famílias evolutivas que jamais se encontraram até determinado momento histórico: o momento em que todos os homens da raça de onde descendem as mulheres morreram por algum motivo, e todas as mulheres de nossa raça foram igualmente extintas. E não houve outro jeito senão nós, homens aleijados, procriarmos com as mulheres deles. Porque – aí está a pegadinha – éramos semelhantes o suficiente para podermos crescer e multiplicar, mas as semelhanças acabaram por aí. Éramos – somos -, afinal, de espécies diferentes. O que explica boa parte da confusão em que estamos metidos desde então.

Há vários argumentos que suportam esta teoria. Homens têm um raciocínio espacial melhor que as mulheres, que por sua vez são muito mais objetivas. Homens têm uma visão de todo melhor, enquanto a mulher é muito mais atenta a detalhes. Homens se interessam por bugigangas eletrônicas, enquanto que mulheres têm um fetiche especial por sapatos. As diferenças são intermináveis, e não é questão de defender que uma característica seja melhor do que outra, de modo algum: o ponto, aqui, é que somos diferentes. Aliás, ponto a favor da diversidade, ainda bem que é assim, já que desse modo um ajuda a compensar as deficiências do outro.

Essas diferenças são físicas, também, o que apenas corrobora a idéia de espécies diferentes. Li um artigo, numa dessas revistas semanais, que um estudo genético sobre ambos os sexos concluía que o DNA da mulher era cerca de cem mil anos mais antigo do que o do homem. Sei lá se isso é mesmo verdade (sou sempre desconfiado dessas “descobertas” da ciência, mas que ajuda a corroborar minha tese, ajuda. As mulheres amadurecem muito antes dos homens, enquanto que estes envelhecem muito melhor. O período fértil da mulher acaba bem antes do do homem. As mulheres tendem a morrer depois, por sinal as doenças a que ambas as espécies estão mais sujeitas também são bem diferentes. O auge sexual da mulher é aos trinta, o do homem é aos dezoito. O tempo que um homem leva para “chegar lá” é bem menor que para a mulher, aliás os orgasmos feminino e masculino não têm quase nada em comum. A própria expectativa em relação ao bom e velho sexo tende a ser extremamente diferente. Exceções à parte – sempre as exceções – em nenhum momento da vida homens e mulheres estão no mesmo estágio. Pensando desse modo, é inacreditável que tenhamos chegado até aqui. E, por outro lado, ajuda a explicar como chegamos aqui, desse jeito.

Mas todas essas diferenças entre homem e mulher são fichinha perto dos problemas que enfrentamos no dia a dia. É ponto pacífico: um homem jamais será capaz de entender como uma mulher pensa. E vice-versa, dizem elas, embora eu tenha a franca impressão de que somos muito mais simples – o que não chega a ser uma vantagem, pelo contrário: nossa simplicidade chega a ser grosseira, aposto muito mais nas sutilezas femininas como resultado desses cem mil anos a mais de evolução, ainda que isso apenas as torne incompreensíveis. A nosso favor posso dizer que um homem sempre será capaz de entender a atitude de um outro homem, enquanto que a mulher nem sempre é capaz de entender o que leva outra mulher a agir do jeito que agiu.

Tenho um exemplo clássico, que sempre uso quando defendo a tese de que a mulher age por uma lógica completamente independente da nossa (ou, em outras palavras, não faz o menor sentido), e outras mulheres dizem que isso não é verdade. O exemplo é o seguinte: dez anos atrás conheci uma garota numa festa, começamos a conversar, e ao que tudo indicava, ela estava me dando bola. Eu estava a ponto de lhe dar um beijo quando, casualmente, ela disse estar noiva. E me mostrou a aliança. Entendi isso como um sinal de manter distância, ela estava apenas conversando comigo, desde quando um homem e uma mulher não podem conversar sem que haja qualquer interesse sexual? Desde aquele momento, concluí, porque ela realmente estava me dando a maior bola. Não era possível que eu pudesse estar tão enganado, e umas duas horas depois (ou assim parecia) não agüentei mais e resolvi arriscar: no meio da conversa, dei-lhe um longo beijo, ao qual ela, ao invés de protestar, não apenas contribuiu como ainda reclamou: “Por que demorou tanto?” PORQUE VOCÊ DISSE QUE ESTAVA NOIVA!, pensei em protestar, mas deixei pra lá. Naquele momento já estava ocupado demais para discutir.

Todas as vezes que contei esta história para outra mulher, ou ela concordava comigo (“é, mulher é bicho complicado, mesmo”), ou dizia que entendia perfeitamente a atitude da noiva e tentava me explicar. Nunca ouvi duas explicações iguais.

A verdade é que tentar entender como uma mulher funciona é não apenas uma tarefa fadada ao fracasso, como também pode ser fonte de eternas frustrações. O melhor, na maioria dos casos, é deixar pra lá, aceitar como uma questão de fé e jamais procurar qualquer embasamento lógico, ou pelo menos de lógica masculina.

A verdade é que isto não é totalmente ruim. Não há nada de mais fascinante do que o desafio de encontrar um denominador comum entre um homem e uma mulher, aquele momento de calma (e, geralmente, bastante sexo) em que as duas espécies se entendem. Criatividade, afinal, é isso: pegar duas coisas aparentemente desconexas, combina-las e chegar a uma terceira, diferente.

A melhor metáfora que já encontrei para isso está num conto de Phillip K. Dick (que com certeza não estava pensando nisso quando o escreveu), chamado justamente de “A Mente Alienígena”. Nele, um astronauta é mandado para um planeta travar contato com uma raça alienígena. Ele tem como companhia apenas um gato, que o irrita tanto que ele acaba matando-o. Quando ele chega ao planeta, os alienígenas perguntam a ele onde estava o gato. Ele diz que o matou, os alienígenas cortam o papo e o mandam embora. Já na viagem de volta ele descobre que apagaram todas as bibliotecas da nave exceto as que falavam de gato, quebraram o sistema de comunicação para que ele não pudesse falar com a Terra, e substituíram toda a comida da nave por… comida de gato. Era, ele concluía, a vingança que os alienígenas armaram para ele. Por quê? Com que fim? Ele não conseguia entender. Mas quem, conclui Dick, pode entender a mente alienígena?

Phillip K. Dick entendia de mulheres.

As mentiras que as mulheres contam

Publicado: 6 de fevereiro de 2015 em O que é do Homem

Eu tinha vinte e poucos anos, e ainda estava no princípio daquilo que viria a se tornar minha vida sexual. Um amigo nosso tinha desaparecido na véspera, e após todos os amigos mais próximos terem recebido um telefonema da mãe dele, desesperada com seu sumiço, o encontramos feliz da vida, após, segundo ele, a melhor noite de sua vida. Fascinados, ouvimos ele contar como levou a mulher (sim, mulher, ela era uns dez anos mais velha do que ele) para a cama, como transaram a noite inteira, como ela gozou sete, oito, nove vezes seguidas. Ouvimos o relato em silêncio e respeito. Não sei quanto aos outros, mas aquilo me deixou confuso. Que eu soubesse, mulher não saía gozando assim, a torto e a direito, quanto mais oito, nove vezes seguidas. Ele nos garantia, entretanto: ela havia ido aos céus. Talvez eu estivesse diante de um super-homem. A resposta para as súplicas de todas as mulheres, alguém que não poderia jamais ficar com apenas uma mulher, mas ser generoso e abnegado o suficiente para distribuir um pouco de seu poder junto a todas aquelas em necessidade. Com o tempo, entretanto, descobri que ele não era o único.

Todo homem é bom de cama. Não, é pouco: todo homem é muitíssimo bom de cama. Capaz de fazer uma mulher ir à loucura, literalmente fazê-las subir pelas paredes. As estatísticas devem estar completamente erradas, porque todas as mulheres gozam várias, várias vezes, até pedir para o cara parar.

Incrível, não?

Eu também achava, mas fui obrigado a me render à evidência dos fatos. Afinal, todos os homens que conheço – de amigos a colegas de trabalho, eventuais companhias de bar, qualquer homem com que tenho uma conversa inocente sobre mulheres, sempre me garantiram: toda mulher, na mão deles, acaba delirando de prazer. São verdadeiras máquinas sexuais, profundos conhecedores da libido feminina. E melhor ainda, não brocham nunca. Com eles nunca tem erro. Então tá…

Se alguém me perguntasse se me acho bom de cama (nunca perguntaram, ainda bem) eu iria parar, pensar bem, chegar à conclusão de que não tenho coragem de fazer nenhuma das observações acima, que perto dessas potências de testosterona não sou absolutamente ninguém, daria de ombros e diria, simplesmente: sei lá. Pergunta pra elas. Eu é que não boto minha mão no fogo.

Porque, sinceramente, eu acho que todos mentem deslavadamente nessa história: as mulheres mentem para os homens, e os homens mentem para os outros homens. E se eu não me incluí no rol dos enganados não é porque eu me acho diferente dos outros homens, nem porque me considero acima dessas coisas. É só porque, bom, desenvolvi um modo bastante saudável (a meu ver) pra lidar com minha própria insegurança: sou cínico pacas. Enganado eu até sou, só não dou a menor bola.

Que eu saiba, as mulheres têm uma dificuldade danada em atingir o orgasmo, e contam para isso com parceiros absolutamente inabilidosos. Basta olhar para esses mesmos homens que vivem apregoando suas façanhas sexuais. A maioria não leva o menor jeito de saber sequer conversar com uma mulher, quanto mais dar qualquer prazer a ela.

E a culpa é das próprias mulheres, que mentem para nós. E mentem descaradamente, sem a menor culpa, como se fosse a mais simples e natural das saídas. Mentem sobre nosso desempenho, sobre os caras que tiveram antes, sobre estarem sem vontade, sobre estarem com vontade… já ouvi minha parcela de “eu não queria, mas você me tocou de um jeito…”, “olha, eu quero que você saiba que nunca fiz isso de transar na primeira noite”, e por aí vai. Em defesa das mulheres, eu entendo que já seja algo automático, que elas lidem com uma expectativa masculina que se repete a tempos. Somos patéticos, afinal de contas.

Não sei exatamente quando começou. Talvez com a revolução sexual da década de sessenta, já que antes disso as mulheres provavelmente não falavam nada. Fico imaginando a primeira vez em que um homem tenha virado para a mulher ao seu lado e perguntado, já receoso das mudanças que vinham acontecendo: “E aí, foi bom pra você?”.

Qual deve ter sido a reação dessa mulher? Nunca tinham perguntado isso pra ela, antes. Nem pra mãe dela, nem pra avó. Não era um assunto que havia sido discutido previamente entre ela e suas amigas. Não constava de nenhum manual de sexo. Poxa, nem existiam manuais de sexo ainda, muito menos Nova ou Marie Claire. Diante daquela pergunta absolutamente original, ela deve ter vacilado. O que poderia responder? Lembre-se de que era um momento delicado. Qualquer palavra, qualquer entonação errada, poderia pôr a perder todo o movimento feminista. Voltariam à idade da pedra. Ela não tinha opção. “Foi maravilhoso, amor. Foram os três minutos e meio mais intensos da minha vida”. O mundo ocidental estava a salvo.

A partir daí virou, mais ou menos, uma regra. Grite bastante, elogie bastante, e o cara vai ficar feliz. “Homem nenhum me fez sentir assim antes” e “Isso nunca aconteceu comigo antes” se tornaram as palavras-chave da relação homem-mulher. E ainda tem gente que se pergunta como fomos chegar a esse ponto de estranhamento entre os sexos…

E nessas horas agradeço ao meu cinismo, que me fez desenvolver duas máximas que defendo com unhas e dentes.

Primeira: Nunca tive problema com brochada, em toda a minha vida.

Verdade. Brocho sem problema algum. Não tenho nenhum problema em admitir isso, e também, folgo dizer, não é um problema médico. As vezes em que o amigo lá embaixo não cooperou foram infinitamente menores do que as vezes em que ele estava bem-disposto (valeu, amiguinho). Mas as vezes que não rolou, não rolou. Fazer o quê? Tudo bem.

Sempre achei curiosa essa obsessão com o rendimento total. Todo mundo que eu conheço tinha nota ruim na escola, já deu uma batidinha no carro, já perdeu a hora alguma vez na vida, já bebeu até passar mal, já apanhou alguma vez na vida. Pra tudo na vida se aceita falhar de vez em quando, menos pra isso. Por quê?

Primeiro, que eu e meu amigo lá embaixo temos cabeças distintas, que nem sempre concordam. Às vezes estou afim e ele não, às vezes é o contrário. E aprendemos a respeitar a vontade um do outro, sempre. (OK; quase sempre. É verdade que ele já me colocou em situações constrangedoras, na praia, por exemplo). Segundo, que não acredito nessa cobrança toda, o psicológico também faz a sua parte e às vezes não ajuda. Se não estou completamente à vontade, se estou me sentindo pressionado apenas porque pintou uma oportunidade mas não estou realmente querendo (aliás, de onde vem esse papo de que o homem tem que querer sempre?), se tem alguma coisa me incomodando, páro e pronto.

Também nunca tive problema com mulher nenhuma por causa disso. Todas elas sempre aceitaram na boa, seja pra ficar brincando mais um pouquinho ou mesmo pra deitar e dormir. Só uma vez a garota se revoltou, ficou histérica, achando que o problema era com ela e cobrando outra postura. Acabei desencanando dela, especialmente porque, se alguma vez na vida eu tive um bom motivo para falhar, foi aquele.

Quem melhor exemplificou a coisa foi um amigo meu, ao ouvir do irmão que este nunca tinha brochado na vida: “Pô, eu brocho até sozinho”.

Segunda: Mulher nenhuma jamais fingiu gozar comigo.

Sempre que não gozam, reclamam. Não, não é ingenuidade minha. Sei que, se elas quisessem, poderiam perfeitamente ter me enganado. Mas a maioria absoluta nunca disse que gozou. E as poucas restantes que fizeram os gestos e gemidos apropriados, bom, estas sempre deixaram bem claro quando NÃO chegavam lá. Uma ex-namorada ficava tão indignada que chegava a brigar comigo, reclamando que ela tinha direito à vez dela, nada disso de deitar de lado e dormir. Nada mais justo, por sinal.

Ainda não acredita? Vamos lá. Meu primeiro namoro de verdade durou nove meses. Ao longo desse tempo todo ela disse ter atingido o orgasmo exatamente… zero vezes. Uau, você vai dizer. Cara de sorte, eu sei. Não pela minha incompetência, claro, mas pelo fato dela jamais ter precisado mentir. Já não lembro direito se ela tinha mesmo dificuldade ou se era pura inexperiência minha, mas o fato é que ela também nunca se queixou. E eu acreditava nela. Idem com as duas ou três mulheres seguintes (talvez esse número seja um pouco maior, admito), era gostoso e tal, mas não rolava.

Na primeira vez que uma mulher gozou, de fato, isso me pegou tão de surpresa que eu não fazia idéia do que estava acontecendo. O corpo dela ficou tremendo inteiro, não deixou que eu a tocasse e, quando tentei conversar, pediu pra ser deixada uns cinco minutos em silêncio. E eu ali, confuso pacas, com medo de que tivesse feito alguma coisa errada… Com a garota seguinte também foi evidente porque dessa vez ELA não sabia o que estava acontecendo: era a primeira vez que atingia um orgasmo.

Meus relacionamentos seguintes foram todos longos – com algumas poucas exceções nos intervalos – e se tiveram o mesmo grau de sinceridade daquele meu primeiro namoro, tiveram também a vantagem de ser também extremamente francos. Nunca tive problemas para pedir a ajuda delas, e elas também nunca tiveram problemas em dizer. Inclusive a que reclamava. Ainda tenho muito a aprender (a quem estou querendo enganar? Sempre terei), mas isso serve de lição: se as mulheres mentissem menos, seríamos homens melhores.

Aliás, sempre achei engraçada essa reclamação feminina de que os homens, depois que gozam, deitam e dormem, que a mulher quer carinho, conversa, essas coisas. A verdade é que todo mundo, quando goza, só quer deitar e dormir, mulheres inclusive. Nada mais justo, o orgasmo dá aquela moleza, aquela sensação de paz que leva o corpo a uma letargia gostosa, seguida de sono. O problema é justamente que as mulheres, em geral, não gozam, seja antes, junto ou depois do parceiro, e fica aquela sensação de que está faltando alguma coisa. É lógico, eu também fico assim, com cara de quero mais, se minha parceira goza, relaxa e me deixa, literalmente na mão. As mulheres não querem conversar mais. Elas querem é gozar mais.

O que eu não quero é que aconteça comigo o que aconteceu com aquele meu amigo que fez a mulher gozar oito, nove, vezes. Algum tempo depois soubemos a versão dela da história: ao perguntar a ela como havia sido, a mulher fez uma cara de pouco caso e juntou o polegar e o indicador dando a medida de seu parceiro e, provavelmente, de seu desempenho.

Ele não precisava disso.

Heróis da Resistência

Publicado: 6 de fevereiro de 2015 em O que é do Homem

Aconteceu alguns anos atrás. Havia sido convidado para o aniversário de um amigo. Amigo é exagero: fazíamos a mesma faculdade, e ele tinha sido o primeiro namorado de meu melhor amigo quando este resolveu assumir (por si só uma história ótima). Resolvi ir por uma questão prosaica: ele tinha uma irmã muito gatinha, por quem eu estava bastante interessado. Fui, mesmo sabendo que a maioria de nossos amigos comuns não estaria na festa.

Chegando lá, a primeira decepção: a irmã não estava. Desnaturada, pensei. Que absurdo, faltar ao aniversário do próprio irmão. Como ela podia fazer isso com… bom, comigo. Olhei em volta, a festa não estava nem um pouco animadora: festa estranha, com gente esquisita. Quase ninguém com quem conversar, umas poucas pessoas conhecidas, desinteressantes. Decidi que ficaria pouco, fui dar uma volta, fui parar na cozinha. Lá tinha um quadro-negro pequeno, provavelmente de recados, onde alguém inspirado havia escrito, de modo didático:

ESTA FESTA:

50% BI
30% GAY
15% LÉSBICAS
5% ARGHHHHHHHH

Eu era, não tive dúvidas, os 5% arghhhhhh. Era minha deixa, me despedi do aniversariante (mais para pegar instruções de como ir embora, que caminho nunca foi meu forte), e me mandei.

É quase um defeito grave, ser hetero. Significa que não temos a menor noção estética, nunca deixamos a adolescência e somos incapazes de dar a uma mulher o que elas querem: alguém que elogie suas roupas ou seu novo corte de cabelo, como se tivéssemos a menor noção do que devemos responder. Somos ridicularizados, vilipendiados (sempre quis usar vilipendiados), menosprezados e subestimados. As campanhas de marketing cada vez mais valorizam os gays, as mulheres e as crianças – todo o poder de compra, aparentemente, está nas mãos deles. Os programas de TV mais modernos, os bacanas e de vanguarda, são sobre o universo feminino ou gay. As mulheres têm seu Dia Internacional. Os gays têm o do seu orgulho. Ser hetero nunca foi mais out. E estar “out” nunca foi tão in.

Não que não mereçamos isso. Foram séculos e séculos de dominação, opressão, açafrão (açafrão?). Antigamente, mas antigamente mesmo, era diferente: as religiões veneravam a Deusa em suas várias formas, as sociedades eram matriarcais. Aí vieram os homens e mudaram tudo isso, foram dominando através de guerras e violência, impondo sua força, sua liderança e seu poder aquisitivo, que culminou com o corpo estirado no sofá da sala, bebendo cerveja e assistindo futebol. Séculos de dominação para chegar a esse apogeu glorioso. Aí, bom, aí foi a vez das mulheres virarem o jogo, e na sequência nossas próprias fileiras foram desertando. Dá até pra entender…

Agora estamos assim, sem espaço, e é quase uma ofensa ser homem. Desculpa, por sinal. Não quis ofender…

Parece exagero da minha parte?

Existe o lado bom. Isso fez com que nos tornássemos, acima de tudo, caras tolerantes. Discriminação contra minorias? Eu sei muito bem o que é isso. Faço parte de um grupo extremamente perseguido. Não me venha com esse papo de oprimido, de discriminação social. Eu entrei pro time, baby. Eu e todos os (poucos) homens heteros que ainda andam por aí. Depois de anos e anos como a classe dominante, agora estamos experimentando ficar do lado mais fraco.

Vão dizer que é um absurdo eu querer comparar a situação do homem atual com a das minorias verdadeiramente perseguidas através da história (não vou citar exemplos pra cair na bobagem de deixar alguém de fora). Verdade absoluta. Por isso não estou comparando, de maneira nenhuma. Não há dúvida de que passaram por abusos e horrores muito piores do que ser desprezado numa festa chata. Só estou falando que, independente de qualquer outra coisa, agora os oprimidos somos nós.

Certo, pode até PARECER que não é bem assim, já que os homens ainda ganham mais do que as mulheres, que ainda ocupamos os principais cargos de poder. E daí? Estou falando uma questão de prestígio, de status. Somos aquele chefe que grita e pode te demitir, mas que é ridicularizado pelos funcionários quando não está vendo, que não é convidado para as festa de aniversário e que ninguém nunca quer tirar no amigo oculto. É triste, ok? É muito chato. Pode não parecer, mas homem também fica magoado. Não espere que eu saia por aí chorando, mas… mas… espera, me emocionei. Onde eu estava, mesmo?

Nunca foi tão difícil ser homem. Hmmm… escolha errada de palavras. Ser homem – e hetero – é fácil e natural (e pelamordedeus, não estou dizendo que ser gay é antinatural, é igualmente certo, ok?). O difícil é ter que responder por tantas responsabilidades e dívidas para com a sociedade. Ainda assim, é um fardo que aceitamos com resignação; Somos uns poucos que resistem bravamente, cônscios de nossa responsabilidade para com as gerações futuras. Para com a preservação da espécie. E, mais importante, alguém tem que deixar a tampa da privada levantada, só para as mulheres poderem reclamar. E esse papel cabe a nós. Os perseguidos. Os teimosos. Os mal-vestidos.

Se a história servisse de lição, seríamos tratados com um pouco mais de magnanimidade por todas aquelas que tiveram que queimar sutiãs em praça pública (por sinal nunca tiveram, é apenas uma dessas ficções que viraram fato), por todos os Oscar Wilde da vida que tiveram que fugir para a França para não serem presos. Não seríamos discriminados por nossos comportamento vis e abjetos, e sim tratados com a complacência e severidade branda com a qual já nos acostumamos, de nossas mães a nossas mulheres. Poderíamos desfilar com nossas camisas xadrez e nossas pochetes sem sermos censurados. Seria o paraíso.

O lado bom é que é cíclico. As mulheres já tiveram a vez dela e a perderam, uns três mil anos atrás. Os gregos demonstraram que o barato do momento era curtir rapazinhos imberbes, e essa moda também passou. Nós teremos nosso lugar novamente. Provavelmente não de destaque, e ainda bem porque estou cansado desse sobe e desce (mas apenas DESSE sobe e desce), mas acho que dá pra todo mundo ter seu espaço, sem discriminação.

Homem também é gente.

O sexo e a Cidade

Publicado: 6 de fevereiro de 2015 em O que é do Homem

(publicado originalmente em 27/10/2004)

Rodinha de bar. Qualquer rodinha de bar. As mulheres falam – nossa, eu amo Sex and the City. É maravilhoso. É sensacional. Eu sou a Carrie, claro. – E começam a discutir seus episódios favoritos. Os homens falam – eu odeio Sex and the City. Não me fala dessa bobagem, não quero chegar nem perto. – Alguns admitem que gostam, mas à medida que o seriado foi ficando mais popular a média tem diminuído. Já vi essa discussão acontecendo dezenas de vezes. Não é, pra falar a verdade, um tipo de discussão nova. Friends e Seinfeld (o que eu posso fazer, só ando com gente que gosta de TV a cabo) causavam polêmica semelhante. A diferença é que essa polariza homens e mulheres.

Isso por uma razão muito simples. As mulheres são pessoas sensíveis e inteligentes, como as personagens da série, por sinal, que se emocionam e se reconhecem ali. Aliás, na Carrie, sejamos francos. Já os homens são brutalhões ignorantes, sem capacidade de compreender o universo feminino e que, no fundo, morrem de inveja por não terem algo semelhante para assistir. Tirando o futebol, talvez, mas não é a mesma coisa.

Quanto a mim, bom, eu ficava mais ou menos no meio do muro. Admito que curti bastante as duas primeiras temporadas – vistas quase de ponta a ponta, em DVD. Nunca tive saco pra acompanhar semanalmente, o que já diz muito. Admito, também, que assisti a terceira já com um certo enfado, achando tudo muito repetitivo. Admito finalmente que comprei as quatro primeiras temporadas, e que só não comprei a quinta porque ainda não tive saco de assistir a quarta. Então acho que isso me dá uma certa isenção pra falar a respeito.

Meu episódio favorito de Sex and the City não é um episodio de Sex and the City, e sim dos Simpsons. Nele, Marge esta tendo problemas de relacionamento com Homer – nada de mais, ela não consegue dormir porque ele ronca muito alto – e vai pedir abrigo uma noite na casa de suas irmãs, Selma e Patty. Chegando lá, encontra as duas diante da TV, fumando feito chaminés, as pernas por depilar, bobs no cabelo, solteironas chegando aos quarenta sem muitas alternativas amorosas. Mas felizes da vida, assistindo a Sex and the City. E comentando – adoro esta serie, ela realmente reflete nossas vidas. Ahã.

Foi o retrato mais fiel que já vi não da série, mas de sua espectadora média. Não estou dizendo que todas as mulheres que assistem e se encantam com o seriado são como as duas, e sim que NENHUMA dessas mulheres são como Carrie, Samantha, Miranda e Charlotte. Por uma razão muito simples: essas quatro mulheres não existem. O mundo em que vivem não existe. Aqueles homens não existem (com exceção de um, mas chego nele daqui a pouco). E, ainda que tudo isso existisse, elas jamais seriam amigas.

Sex and the City é o seriado de fantasia mais irreal jamais visto, e esta é justamente a fonte de seu sucesso. Não importa que tenha se baseado no livro de uma jornalista, que os episódios falam de lugares reais de Nova Iorque, ou que ele se pretendesse um retrato fiel da mulher solteira e emancipada das grandes metrópoles. E tudo bem, mesmo. Não tenho nada contra a fantasia, muito pelo contrário. Tenho certeza de que se a série fosse um tiquinho realista que fosse, teria fracassado completamente. O que eu acho engraçado é que todas as mulheres que o assistem falam sobre o quanto é “real”.

Dê uma olhada no mundo em que elas habitam. Todas vivem bem, em excelentes apartamentos de Manhattam. Têm bons empregos charmosos, freqüentam todos os restaurantes e bares e boates da moda. Mas o melhor de tudo são os caras que conhecem. Com raríssimas exceções, são ricos, lindos, jovens, bem-sucedidos. Cansei de contar os jornalistas e advogados e – meu preferido – corretores da bolsa que conheceram ao longo destes cinco anos. Isso porque são unânimes em afirmar que não há homens disponíveis. Só se for para o restante da população feminina, porque elas pegaram todos.

Tenho um amigo – americano, o que lhe garante alguma credibilidade nesta questão – que me garante que esse tipo de universo realmente existe, é típico de uma certa Nova Iorque. Bom, pode até ser. Mas isso só significa que a série retrata fielmente um grupinho muito, mas muito elitizado mesmo, de mulheres. É como se fizessem uma série sobre o Marajá de Brunei, e dissesse que ela representa o indiano médio.

Talvez eu esteja me excedendo um pouco. Talvez os criadores da série jamais tenham tido essa pretensão, apesar de por alguma razão quase toda mulher que assista TV a cabo se identifique com elas (quer dizer, com a Carrie). Afinal, basta dar uma olhada nas personagens para ver que elas não passam de um bando de estereótipos. Samantha faz o gênero ninfomaníaca, um homem de saias. Pega tudo o que se move. Charlotte é a pudica, a pura, a envergonhada. E ah, sim, a romântica. Miranda é a cínica estressada e desconfiada. E Carrie, bom, um prêmio para quem conseguir dizer quem é Carrie, além de ser absolutamente obcecada por sapatos. Como boa protagonista, é a única que não tem uma característica marcante. Pode-se dizer que é uma antropóloga sexual. Pode-se dizer que é uma mulher tentando conciliar a vida profissional com a amorosa. Que se divide entre as vantagens da vida de solteira e da comprometida. Pode-se dizer qualquer coisa, na verdade, porque seus criadores a deixaram intencionalmente vaga, de modo que qualquer mulher pudesse se identificar com ela. É por isso que toda mulher conhece uma Charlotte, uma Miranda, uma Samantha – mas ela, claro, é Carrie, sempre. Como já dizia aquele cara namorado da Simone de Beauvoir, o inferno são os outros.

Mas os estereótipos não se restringem às mulheres. Os convidados masculinos são tão estereotipados quanto. Além dos convidados eventuais, que em sua grande maioria se restringem ao modelo que citei anteriormente, vale destacar os personagens fixos. Stanford, o amiguinho gay que, veja só, passa pelos mesmos problemas que elas para arrumar namorado. Mr. Big, o grande interesse romântico de Carrie, é o homem com quem toda mulher sonha: podre de rico, charmoso, elegante, inteligente, bem vestido, levemente cínico, com um certo medo de se comprometer. Grande e moreno, claro, e certamente misterioso, a tal ponto de seu nome só ter sido revelado no ultimo episodio. Aidan, o outro namorado fixo de Carrie, faz o tipo oposto: é o cara que todas as mulheres dizem que querem, mas que no fundo, no fundo, não dão o menor valor. Caseiro. Companheiro. Bonzinho. Fiel. Doce. O tipo de homem perfeito, até que conhecem alguém como Big. Os outros exemplos são ainda mais estereotipados. O garanhão incapaz de permanecer fiel apesar do mulherão que tem em casa. O médico rico e bem-sucedido que não consegue uma ereção. O modelo lindo sem nada na cabeça. O nerd completo, sexualmente um zero à esquerda. O adolescente maconheiro. O músico hedonista. Claro, a artista lésbica. Uma infinidade de outros com as mais variadas bizarrices sexuais. Para comentar alguns, só de lembrança. Dessa galeria toda, só um se salva: Steve, o barman namorado de Miranda. Pra começo de conversa, que alívio descobrir que ele não é o dono do bar em que trabalha, apenas um reles garçom. E mesmo assim com personalidade. Espera alguma coisa da relação. Não tem nada que o desabone, nenhuma peculiaridade estranha. Um cara normal, de verdade. Ele é tão real que até destoa dos demais. Parece deslocado da série. O que ele, afinal, viu numa chata como Miranda?

Da pra entender por que é que os homens não conseguem gostar da série? Primeiro, porque não tem um só personagem masculino com quem possamos nos identificar. Segundo, porque não tem uma só dessas mulheres que dá pra falar – queria uma mulher assim. Provavelmente iria pra cama com todas, claro, embora Charlotte certamente deva deixar muito a desejar. Mas me relacionar? Com uma dessas quatro malucas? Esquece!

Antes que eu seja chamado de brutalhão ignorante, sem capacidade de compreender o universo feminino, deixa eu propor um pequeno teste pra deixar bem claro por que é tão difícil pra um homem gostar, sinceramente, de Sex and the City. O teste é bastante simples – vamos inverter os sexos dos personagens. Vamos imaginar uma série igualzinha, mas masculina.

Charles, a versão masculina de Charlotte, é aquele cara bonzinho, romântico, que provavelmente nunca fez sexo na vida ou, quando faz, se apaixona pela primeira que vê pela frente. Toda mulher conhece um cara assim: é aquele melhor amigo da escola, completamente inofensivo, a quem chamam de irmãozinho.

Sam, a versão masculina de Samantha, também é fácil: é o homem típico, garanhão, conquistador, que jamais perde uma chance de levar uma mulher pra cama e jamais perde uma transa. Alguém mais preocupado com a própria satisfação do que com a da parceira. O tipo de homem que as mulheres abominam, claro que depois de terem ido pra cama com ele.

Marcos, nosso Miranda, é o cara obcecado com trabalho, cínico e sarcástico. Não confia e não acredita nas mulheres, acha que elas sempre querem alguma coisa dele. Como seu trabalho e sua carreira são a coisa mais importante de sua vida, as mulheres só tem uma serventia: sexo.

E, finalmente, Caio, a Carrie deste mundo bizarro. Caio é jornalista, adora brinquedos eletrônicos (a versão masculina dos sapatos), vive tentando entender o sexo oposto mas nem por isso deixa de ir pra casa acompanhado. Vibra toda vez que conhece uma garota legal, mas não perde jamais uma noitada com os outros três amigos.

E sobre o que seria o universo desses quatro amigos? Mulheres, claro. Falar sobre elas. Tentar entendê-las. O desejo, honesto e sincero, de conhecer uma garota legal, com quem vale a pena ficar, entremeado por todas as tentativas frustradas com as mulheres mais erradas possíveis, a imensa maioria, por sinal. Em meio a tudo isso, sexo, sexo e mais sexo. Um pouquinho de solidão, talvez, o que não chega a ser nada diante da certeza de que nada vale mais para um homem do que seu grupo de amigos, certamente algo muito melhor do que qualquer mulher que possam conhecer na noite.

Soa um tanto quanto machista, fala a verdade. E não pára por ai. Vamos começar com Stella, a versão feminina de Stanford. Não seria gay – ao contrario das mulheres, os homens não costumam ter uma lésbica como melhor amiga. Assim, Stella seria aquela garota feinha que você não consegue empurrar pra nenhum dos seus amigos, que já teve uma queda por você mas felizmente superou. É quem te ajuda a tentar decifrar a psicologia feminina, ainda que não seja de muita ajuda porque nem ela entende direito.

Vejamos, como seria a versão feminina de Aidan, Ana? Ela é aquela garota legal, não especialmente bonita mas muito, muito legal. Adora ficar em casa com você, e com certeza é a nora que sua mãe pediu a deus – a mulher perfeita pra te tirar do mau caminho. Carinhosa, amorosa, doce, um doce de pessoa. Dava pra fazer um bolão sobre quanto tempo ela ia levar pra levar um chifre. É a mulher perfeita pra passar o resto da vida, é verdade, por isso mesmo só é bom ficar com ela depois de já ter se vivido de tudo.

E, certamente, a versão feminina de Big, apropriadamente chamada de A Boa. A Boa é modelo, claro. Vinte e poucos anos. Rica, linda, freqüenta as rodinhas mais quentes, e, é claro, sempre está disposta ao sexo mais fenomenal. É aquela mulher que você apresenta pros amigos pra deixá-los morrendo de inveja. E eles morrem. Claro que a Boa não é perfeita. Como vive viajando, nem sempre está ao seu lado quando você precisa. Independente, não quer ser vista como “a namorada”, por isso às vezes tem a tendência de sumir. Dificilmente faria a linha “mãe de seus filhos”, mas, e daí? Sempre que aparecesse, você correria direto pra ela. Parece familiar, não?

As demais personagens femininas, participações especiais destinadas a um ou poucos capítulos, representariam o essencial das fantasias e medos masculinos. A garota que quer se casar após o primeiro encontro. A lésbica dividida, pronta para ser recuperada. A garota que chora toda vez que transa, ou que tem um monte de bichinhos de pelúcia em sua cama, ou que não consegue atingir o orgasmo de modo algum. A adolescente (ok, dezoito aninhos) que adora homens mais velhos. A coroa enxuta. A atleta que acorda às seis da manhã para malhar e quer te levar junto. Ou a que quando sai com você só fala do ex-namorado, de quem acabou de se separar. Os exemplos são infindáveis, e nem estou me esforçando tanto assim – só buscando equivalentes ao que já assisti em Sex and the City. Quando o assunto é sexo, os assuntos são infindáveis.

Já posso escutar os protestos intermináveis das feministas de plantão. Uma série assim machista e preconceituosa jamais teria lugar nos dias politicamente corretos de hoje. E, mesmo assim, se é com mulher, pode… francamente, me parece um seriado muito mais viável do que sua versão feminina. Primeiro, porque é muito mais provável que exista um grupo de amigos homens assim do que suas equivalentes glamurizadas. Quem matou a charada foi outro amigo meu, que é gay e, claro, adora o seriado: elas na verdade não são quatro mulheres. São quatro bichas. Não é à toa que todo episódio gira em torno de levar um homem pra cama. Ele foi mais além, demonstrou pra mim como cada uma dessas mulheres equivale a um tipo especifico de gay. Faz sentido.
Eu já continuo apostando numa versão masculina. Se alguém se animar a fazer um seriado assim, é só me chamar.

Brincar, uma função de pai

Publicado: 30 de novembro de 2014 em THEOria

Findi nublado, chuvoso, chamo os pais da “gangue” pra crianças brincarem aqui – três adultos e quatro crianças no total. Ficamos na varanda conversando enquanto as crianças brincam na sala. Brincam de várias coisas, mas o que querem brincar mesmo é com as armas de Nerf. E, por brincar, entenda-se: querem que eu participe, no papel de grande vilão. A cada vez que nos interrompem, a mesma coisa: Vem brincar com a gente! Vamos atacar o tio Renê! Vem, mãe! Vem, pai!. – seguido da mesma resposta sempre: os adultos tão conversando, é pra vocês brincarem entre vocês. E assim prosseguimos nossa conversa, cinco minutos de cada vez, até que uma hora parecem desistir e se distraem entre eles.
Conversa vai, conversa vem, falamos de dar limites aos filhos, fazer o papel de malvado. Digo que cumpro o meu sem a menor culpa, sempre expliquei para o Theo que um dos meus papéis de pai era impor limites e educar. Até formatei isso: desde os cinco anos repito para ele que tenho quatro funções como pai, exercidas em ordem: em primeiro lugar, amar. Sempre. Incondicionalmente. Em segundo lugar, proteger. Dos carros na rua, de se afogar na piscina, de cair da escada. Estou sempre junto, sempre perto, sempre de olho, pode ir tranquilo e confiar. Em terceiro lugar educar: por isso as broncas, por isso os nãos, por isso os limites. E, em quarto lugar, brincar. E assim nos entendemos. Resolvo me exibir um pouco . Theo!, eu grito. Vem aqui um pouquinho. Ele larga a brincadeira. “Que foi, pai?”. Quais são minhas quatro obrigações de pai? Ele pára, pensa. “Proteger, amar, ensinar e brincar”. No que pára. “Peraí!”. Se toca. “Brincar! Brincar é uma das suas obrigações!”. Me dou conta que morri pela boca. Ele tá com a razão agora. Encerramos a conversa, convoco os outros pais a entrarem na brincadeira e vou pegar as armas de Nerf.

Uma surpresa…

Publicado: 16 de outubro de 2014 em THEOria

O Theo tem um grave problema. Ou não, grave problema temos nós, que não temos o desapego dele: ele odeia se relacionar virtualmente. Se a pessoa está ao lado dele, ele brinca, curte, conversa… mas tenta ligar pra ele. Fazer um FaceTime. Skype. Ele ou se recusa a falar, ou faz corpo mole ,(uma vez ficou falando “alô? alô?”, como se o telefone estivesse com problema, só porque estava no meio do desenho), ou é profundamente lacônico e desinteressado. Todo mundo sofre com isso – os avós, eu, quando ele está lá, a mãe dele, quando ele está comigo. Theo, quer falar com  a vovó? “Nãaaaaao!”, é a resposta. Pra ele vale o aqui e agora. O que pode ser lindo e maravilhoso pra ele levar pela vida. Mas ô seu moleque, vai falar comigo sim, ou pode ir esquecendo seu presente de natal. Algo que eu não disse. Mas, conhecendo o cara, ele diria apenas “tudo bem, pai”, com indiferença. Ele não pode ser comprado. A solução teria que ser outra.
Passei as últimas semanas batendo na mesma tecla com ele: Theo, papai tem muita saudade, fala comigo nem que seja só um pouquinho! E ele é sempre doce, pede desculpa, diz que vai ligar, explicar que não é por mal… e no dia seguinte atende com má vontade. “Que fooooi? Tô jogaaaaando”….
Mas durante esse último final de semana pareceu cair a ficha. Na hora de me despedir lembrei-o novamente, cinco minutinhos no telefone! Prestando atenção ele estava, porque lembrou da combinação exata: “não, pai, a gente combinou três”. Mas chegou 2a, e nada. Deixei quieto. Aí veio 3a e… 19:17 e toca meu celular. Era ele. Atendo. Oi, Theo. “Oi, Pai. Gostou da minha surpresa? Viu que eu lembrei de te ligar?” Falo que fiquei muito feliz. Que era pra ele aproveitar e colocar um alarme no celular pra sempre lembrar de me ligar essa hora. “Vou fazer agora!”, ele diz com urgência. Não, eu falo, espera a gente terminar a conversa. “Vou fazer enquanto a gente conversa”, ele diz, confiante. “Quantos minutos?” Quantos minutos o que, eu pergunto. Coloca pras sete e… ele me corta. “Quantos minutos pra desligar!”. Ele não estava preocupado em colocar o alarme. O que ele queria era colocar na contagem regressiva, pra poder desligar e voltar para seu videogame….

Dia das crianças e duas histórias curtas

Publicado: 13 de outubro de 2014 em THEOria

A primeira:

Theo assistindo Popeye. Já está no segundo ou terceiro episódio quando me pergunta: “Pai, por que o Popeye não come o espinafre de uma vez?”

 

A segunda:

Costumo falar que o Theo não brinca; ele roda um filme em sua cabeça. Seja um carro ou um boneco do Batman, ele o coloca bem perto dos olhos e corre de um lado para o outro com eles, claramente uma câmera conduzindo a ação. Parece exagero? Poderia até parecer se ele não complementasse a ação com diálogos entre os personagens. Tá, toda criança faz isso quando brinca… bom, ele começou a cantarolar enquanto brinca. Claramente trilhas de ação: as brincadeiras dele têm trilha sonora. Mas a confirmação mesmo só veio ontem. Chamei ele pra tomar banho, ele respondeu que tava ocupado, brincando. Fui até o quarto dele, lá estava ele, correndo de um lado para o outro com os bonecos na mão. Dez minutos depois ele vem até mim. Pronto, pai. Já estão passando os créditos…

Eu sou um filho péssimo!

Publicado: 20 de setembro de 2014 em THEOria

De todas as histórias com o Theo, é a mais difícil de contar, porque foi onde senti que falhei mais profundamente como pai (isso porque já perdi o cara no shopping). Final de semana com ele, um casal de amigos nos convida para passar o sábado na casa dos pais dele, várias crianças reunidas. Visto o Theo com uma camiseta que ele havia acabado de ganhar de aniversário, que era a cara dele. Chegamos lá e sento na mesa dos adultos enquanto ele corre para junto das crianças. Algum tempo depois ele surge pra me fazer uma pergunta, e resolvo brincar com ele. Mal o escuto e já respondo – não pode, porque você tá de castigo. “Por que, pai? Que foi que eu fiz?” Você sabe muito bem!, insisto. Normalmente ele não ficaria abalado. Ele sempre sabe quando estou mexendo com ele, quando estou fazendo uma brincadeira para provocá-lo. De uns tempos pra cá ele nem se dá ao trabalho de retrucar, só pára o que está fazendo, fala “Um minuto!”, vem até mim, me dá um soco no ombro e continua suas atividades. E provavelmente dessa vez seria assim também… mas o pai de um dos amiguinhos entrou na pilha. Foi você sim, Theo. E a mãe de outro também. É, foi você. Ele ainda tentou protestar. “Eu não fiz nada!”, mas diante da insistência deles, travou e correu pra dentro. Corri atrás dele, já antecipando o que vinha por aí. Theo, calma, falei, tentando abraçá-lo, os olhos dele já se enchendo de lágrimas, diante da injustiça que acabava de sofrer. Olha só! Peguei o celular pra tirar uma foto da camiseta dele, e então mostrei: lá estava escrito “NÃO FUI EU!”. Viu? Era só uma brincadeira! Ele relaxou instantaneamente. Respirou fundo, recobrando o eixo. E voltou a brincar.
O resto da noite transcorreu sem problemas, e quando chegou a hora de ir embora entramos no carro e perguntei se ele tinha gostado do dia. “Sim. Mas odiei essa camiseta, nunca mais vou querer usar”. Dei risada, ele continuava incomodado. Expliquei que era só uma camiseta, tinha sido só uma brincadeira, e que o problema foi que ele tinha sido pego de surpresa, a partir de agora ele sempre ia saber do que as pessoas estariam falando e não ia se sentir atacado. “É, mas eu não gostei que eles ficaram me acusando”. Theo, falei num tom jocoso, você acha mesmo que eu ia deixar um monte de gente te acusar de alguma coisa que você não fez? Ele se tranquilizou. Meia-hora depois estacionávamos em casa, ele já caindo de sono. Mencionou mais uma vez a camiseta, aproveitei pra cutucar. Seu doido, achar que seu pai ia deixar que fizessem isso com você!
E então ele desceu do carro com a cara fechada, correu para o elevador de costas pra mim, ansioso pra chegar em casa. Alguma coisa acontecera, e eu não tinha certeza do que. Abri a porta de casa e ele se jogou no sofá da sala, onde começou a chorar compassivamente. Me restava uma uma leve suspeita, mas estava com medo de estar certo. Não fazia sentido ainda estar bravo por causa da camiseta; só podia ser outra coisa. Puxei ele pra mim. Ele se recusou a vir. Fiz um carinho e perguntei o que aconteceu. E então veio a bomba. “Eu sou um filho péssimo! Eu não mereço nada!”. Ele não estava bravo comigo ou com ninguém. Ele estava profundamente envergonhado com ele mesmo, com sua reação. Se sentindo péssimo por ter desconfiado de minhas intenções. E eu tinha sido o causador disso. Em minha necessidade de deixar claro que eu sempre o apoiaria, sem querer questionei a confiança dele em mim. E agora ele estava assim, alguém que exigia demais de si mesmo sentindo que tinha falhado completamente em seu papel de filho. Quando o único culpado do que quer que fosse era eu. Abracei-o contra a sua vontade e deixei claro o quanto ele era um filho maravilhoso e que não havia feito nada de errado. E tentei lembrá-lo – e preciso sempre lembrá-lo disso – que ele tem apenas sete anos, e que não precisa se cobrar tanto, que não precisa acertar sempre, que errar faz parte, está tudo bem errar, é errando que a gente aprende. E que a última coisa que eu queria era que ele duvidasse de si mesmo. Tá tudo certo, insisti. Aos poucos ele foi acalmando, a respiração voltando ao normal. Assistimos dois episódios de O Mundo de Mia, abraçadinhos, e o coloquei pra dormir.
Me sentindo o pior pai do mundo.